Espaço dedicado a pensamentos, poesias & devaneios. Sabor, comida, viagens, fotos, livros e o que mais der na telha (ou no forno).

quinta-feira, 30 de maio de 2013

“Despierta corazón dormido”


O dia segue cinza lá fora
Frio, curto. Cortante
Lençóis rasgados, quadros sem esquadro
Cicatrizes, perdas, fugas, vazios
Bordados, linhas
Cores desencontradas
O assovio de um vento solitário
Cores em pó, cores líquidas
O sussurro de um segredo
Cores fluidas, fugidias
O grito inaudível
Penas, pernas, asas, membros e anjos
Arremedo de vida
A promessa do eterno
Quimera
O azul preso em meus olhos
A dor em meu coração
Pés sem chão
Aço cortando a carne
Despierta!
“Despierta corazón dormido”



Aparelhos ortopédicos e os vestidos de Frida






Criações de Riccardo Tisci (Givenchy Alta Costura) inspirados no vestuário de Frida Kahlo




A cozinha de Frida e Diego



La Casa Azul - Museo Frida Kahlo
Cidade do México
Abril de 2013

sábado, 23 de março de 2013

Escritos íntimos. 3

Esses escritos podem ser uma carta de amor,
Despedida, entrega, um pedido, uma oferta.
Uma placa de “Vende-se”.
Podem ser. Poderiam ser.
Podem ser tudo,
ou nada disso.

Aceite. Uma carta de aceite. Apenas um sim.
Mesmo sem entender,
aceito.
Aceito.
Uma pedra. Um selo.
O sim falado no altar.

Sobre a cama, sobre o caixão.
Solo, sangue, grama e flor.
Aceito.
Aceito as efemeridades da vida, a finitude.
Aceito o estar,
o passageiro.

Só agora percebo com clareza que “só posso sentar onde estou”,
e quando “estendo o braço, chego exactamente onde o meu braço chega”.
Afinal, “pressa de quê?”, disse o poeta.
Então, aceito.
Aceito.
Afinal, fomos feitos para acabar.

Inspirado por Alberto Caeiro e Marcelo Jeneci.

sábado, 16 de março de 2013

Escritos íntimos. 2

Guardo comigo uma ferida
Profunda
Guardo-a comigo
Entre meus pulmões
Ferida
Que se abre todos os domingos
Sangrenta
Que esconde pensamentos e lamentos
Que mesmo doída, sangrenta, profunda e escura
Traz-me luz
Mesmo que me cegue
Traz-me leveza
Mesmo que me leve às profundezas
Traz-me conhecimento
Mesmo que me paralise
Traz-me forças
Guardo comigo uma ferida
Que se abre todos os domingos


You aquí quemándome por nada
Juan Camilo Uribe
Medellín, 1945-2005

segunda-feira, 11 de março de 2013

Escritos íntimos. 1

Fecho os olhos.
E quando os abro.
Anos se passaram. Décadas se foram.
Porque o tempo se quebrou.
E escrevo garranchos indecifráveis em um caderno pequeno e pautado.
Para recordar. Para respirar.

À parte de mim. Entre mim. Entre meus braços.
Em seus braços.

É um cenário mágico que habito nesse instante. Onde a vida e a morte esbarram-se no corredor.
Estreito e íngreme, por vezes.
Largo e plano, quase sempre.
Tocam-se em reverência mórbida. Um breve e malicioso aceno.

Respiro nesse momento uma matéria tão pesado quanto o mais profundo dos oceanos.

Apenas munido de pá e enxada sou capaz de caminhar pelos corredores.
E assim vou construindo um passeio. Breve, finito, estreito e incerto.

Olho para trás. Por cima dos meus ombros. Vejo.
Cacos.
Espinhos.
Pregos.
Rasgos.

Na TV, um filme. Língua que não é a minha. Sem legendas.
Assim, como eu.
Neste aposento, apenas uma luz. Distante de mim.
Assim, como eu.
Teatro para loucos.
E é assim que me vejo.
Sem espelho, sem passado.
Um futuro.
Incerto,
mesmo estando certo.

Dias atrás vi um bebê máquina. Na antessala da vida e da morte.
Monitores, sondas, tubos, cânulas e cateteres.
A soma e a personificação do começo e do fim.
Penso nele algumas vezes. Qual dos extremos ele escolheu?

Aqui. Hoje. Nesse aposento escuro também me pergunto.
Qual dos extremos escolheremos?

Caso nos seja permitido escolher.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

El sabor de Colombia

- Colômbia?!?! Como assim?
Essa foi a reação de todos os meus amigos quando eu disse que iria passar 10 dias na Colômbia.
- Meu Deus, você será sequestrado!
Essa foi a segunda reação.

Enfim, passei os 10 dias por lá, estou de volta já há um tempinho e resolvi escrever algumas palavras para finalizar as postagens fotográficas colombianas.
Afinal, tudo precisa ter um fim (quase tudo...) e quero deixar claro que não fui sequestrado. Infelizmente, quando a maioria das pessoas pensa na Colômbia, algumas coisas banais, ou nem tanto, surgem na cabeça: café, um outro pó - mais pesado e devastador - e forças revolucionárias prontas para confiná-lo por décadas. Todo e qualquer país tem seus problemas, mas a visão estereotipada e tendenciosa vinculada pela mídia é mais devastadora que qualquer droga. E imagino que a mídia de fora deva fazer a mesma coisa com o Brasil, não é mesmo?

Durante esses poucos dias, vi um povo gentil, simples e educado. Museus encantadores, muitos deles gratuitos. Uma comida colorida e deliciosa. Enfim, um país rico em cultura. Lógico que vi desigualdade social, pessoas sem teto, pessoas perdidas nas drogas. Como em qualquer outra grande cidade – seja ela de 1º, 3º ou 5º mundo.

Porém, guardarei comigo as flores e o céu de Cartagena das Índias, os cafés e a arte de Bogotá, as livrarias e, logicamente, as comidinhas de rua, as frituras, os patacones, as arepas e os doces muito doces - e dá-lhe arequipe (o delicioso doce de leite colombiano).
Maíz, mazorca, papa, yuka, plátano verde, coco, cilantro e aguacate! Uma riqueza de sabores. Algumas vezes, lembrando o Brasil, praia, uma comida caiçara. Em outros momentos, quase uma comida baiana. E a miscigenação Europa-América bastante presente, tanto nos rostos, quanto nos pratos.

Quer um conselho? Livre-se de preconceitos e vá!

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“[...] La identidad humana es transcultural y no puede tener, por lo tanto, um solo punto de referencia.”
Raimon Panikar
Invitación a La Sabiduría
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Já que esse blog é transcultural (leia-se confuso), não resisti e coloquei abaixo a receita de uma iguaria - os patacones. Posso dizer que são comidos no café da manhã, almoço e jantar, ok? Lá, eles utilizam o plátano verde, semelhante à nossa banana verde, mas com sabor diferente. Ainda não testei a receita, mas talvez o resultado seja interessante. A foto e a receita abaixo foram tiradas do livro El sabor de Colombia, Villegas Editores.


Patacón pisao
8 porciones

4 plátanos verdes
aceite
sal
ají

Pelar los plátanos y cortalos en pedazos de 5 cm. Freírlos durante 5 minutos en abundante aceite no muy caliente, sacarlos, escurrirlos y machacarlos.
Pasarlos por agua con sal y ají y freírlos de nuevo en aceite bien caliente hasta que doren.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Gordos & Gordinhas





Naturaleza muerta con helado
Fernando Botero

 Mujeres de vida galante
Paul Delvaux

Busto retrospectivo de mujer
Salvador Dali

 

Museo Botero
Bogotá
Janeiro 2013