O chef dá início à sua palestra citando Borges e deixa claro que a sua cozinha é uma cozinha de autor – Ele trabalha no que acredita. Filosofa sobre o sabor, a visão e a textura, chegando à seguinte conclusão: a visão é o sentido mais agressivo e somando-se à visão o tato nos integra à experiência gastronômica.
Tive a impressão de que na tentativa de estimular outros sentidos e sensações, o visual, por meio de seu poder “viciante” é colocado de lado – e, em um prato preto e branco só nos resta o sabor e a textura, pois o tato são os “olhos da boca”.
O chef ainda faz um pequeno experimento: usando um motor de aquário prepara ao vivo "bolhas de mel" – uma espuma de mel preparada a partir de uma solução de mel, água, albumina e goma xantana.

Tereza Paim e Beto PimentelInovações com Frutos e FrutasOs chefs, já de início, lançam a seguinte pergunta:
Por que o Baiano come assim?E a resposta vem de Tereza Paim, que fala sobre a fusão de índios, portugueses e negros. Esses últimos, além dos sabores picantes, trouxeram os seus Orixás, os rituais religiosos (os Ebós) e as comidas de Santo, oferecidas em agradecimento às Entidades africanas.
Ainda sobre religiosidade, Tereza Paim fala sobre os impactos das religiões evangélicas sobre a comida Baiana-Africana – o acarajé, lá em terreno Baiano – começa a ser chamado de Bolinho de Jesus por muitas acarajezeiras evangélicas. No mínimo curioso!
Deixando de lado a religião, a Chef faz uma severa crítica sobre a produção de biodiesel a partir do dendê:
“Não se produz energia alternativa com alimento!!”Nesse sentido, muitas famílias estão vendendo, por trocados, o pouco de terra que tem para a Petrobrás, perdendo assim o sustento de suas famílias. Após essa venda,
a priori interessante, os pequenos produtores de dendê, sem o seu sustento acabam mergulhando no alcoolismo e destruindo suas vidas.
A aula dos chefs mostrou claramente a relação da gastronomia com religião, política e economia. Que nos sirva de alerta.
Chistian EscribàShow-doceO grande confeiteiro Escribà começa a aula mostrando um divertido vídeo sobre os bolos explosivos (literalmente) e ameaça a todos que o mesmo pode acontecer com a platéia! À nossa frente estava um imenso bolo com pavio – e o chef prometeu que seria aceso, o que acabou não acontecendo, mas permitiu alguns momentos de tensão nas primeiras fileiras do auditório.
Brincadeiras à parte, Escribà faz um grande elogio à confeitaria, e diz que a sua função é surpreender, emocionar e criar um momento único. Realmente, suas obras de arte –
bolos mágicos, mulheres vestidas em açúcar, murais comestíveis, jóias de açúcar, carros alegóricos doces e paisagens açucaradas – surpreendem!
A confeitaria sai das vitrines e interage com o cliente. Um doce não é mais um simples doce, a partir do momento que ele pode ser usado como uma jóia ou como um objeto de decoração. Mas, ainda assim, mantém a sua função e, ao mesmo tempo que adoça a boca e estimula a visão, supreende pela criatividade.
Júlio César Blanco
Alta confeitaria tradicionalNão se apresentou, por problemas de agenda.
Marcos Morán
Miúdos marinhos, moluscos e suas peculiaridades
A lição do chef é: cozinhar com simplicidade, preservando o ingrediente. Marcos Morán, no máximo de seu minimalismo, diz que há diferenças entre
um restaurante de produto e
um restaurante que cozinha produto. No caso dele, usando baixas temperaturas e maçarico, submete o pescado a uma cocção delicada, por vezes, mantendo o produto quase inalterado.
O chef estimula ainda o consumo de quase todas as partes do peixe: fígado, cabeça, bochechas e bexiga.
Ángel León
Cocções ecológicas
O chef vem com uma proposta ecológica: o uso do pescado de descarte. Em alto mar, a pesca devastadora retira do oceano quantidades enormes de pescado que nunca chegam ao porto, pois somente o que tem “nome” tem valor. Como Ángel teve uma vivência ampla dentro de embarcações pôde estudar detalhadamente a classificação dos peixes e frutos do mar.
Suas técnicas de cocção são simples, sempre pensando em preservar a textura natural do produto. Ainda sobre técnicas, o chef apresenta um carvão de caroço de azeitona – ou seja, no lugar do carvão que conhecemos, o chef utiliza caroços de azeitona. Conseqüentemente, une-se o calor ao aroma.
Alex Atala
Reflexões sobre ingredientes brasileiros
O chef mais famoso do Brasil inicia a sua palestra dizendo que
“quanto mais a gente dá aula, mais temos vontade de aprender”. Para nós professores, isso é realmente uma realidade.
Logo em seguida, Atala dá um recadinho para os chefs tradicionalistas (ler
La guerra de los fogones):
"Voltem à idade da pedra! Fiquem sem seus celulares, carros, etc!!" Recado dado...
Atala diz ainda que espera ver os ingredientes brasileiros ao lado dos produtos franceses, italianos, etc.
Nesse sentido, Atala traz ao público dois produtos desconhecidos pela maioria dos brasileiros: o
turu e a
priprioca.
O turu é um molusco, que pode ser encontrado dentro dos troncos em mangues – uma espécie de "lesma" comprida, branca e gelatinosa. Na verdade, visualmente nada apetitosa, mas consumida amplamente pelos nativos da Ilha do Marajó (clique
aqui e
aqui para maiores informações e formas de consumo).
Já a priprioca, o
Cheiro do Pará, é uma planta perfumadíssima, que infelizmente ainda não conheço, mas que você pode conhecer um pouco mais
aqui.
Atala agrega em uma mesma sobremesa uma infusão, um caramelo e uma gelatina de priprioca, produzindo uma espécie de um pudim de leite aromatizado com a priprioca. O chef dá um explicação lúdica sobre a sua sobremesa, que contempla o lado afetivo e mostra técnicas gastronômicas com características sensuais – Atala finaliza a sobremesa com um spray de priprioca – é o toque feminino e luxuoso que faltava à sobremesa.
Ferran Adrià
Estilos e características do El BulliAuditório cheio, pessoas em pé, outras no chão. Todos os olhos e ouvidos voltados para Ferran Adrià, que dá início à sua palestra apresentando um vídeo-arte sobre um casal jantando no
El Bulli – a câmera focaliza as reações de ambos, a música corrompida, os acordes estridentes, as bocas, os olhos...Ferran afirma que o
El Bulli é paixão, emoção, não somente espumas e esferas.
A cozinha do
El Bulli é uma cozinha artesanal – são 45 cozinheiros servindo 50 clientes.
Adrià divagou bastante antes de falar sobre as suas técnicas. Seguem abaixo as palavras do chef como as transcrevi (muitas dessas observações apareceram no meio de colocações mais amplas):
O importante é cozinhar como se deseja. A técnica aprende-se e pronto.
Fazemos uma cozinha cristalina.
A cozinha genial precisa de concentração.
Não há comida estranha, nós somos os estranhos.
Cozinha é linguagem, é comunicação.
Um alfabeto novo será muito diferente. Em 1993-94 ninguém nos entendia, mas continuamos trabalhando, acreditando na linguagem nova.
Após essa série de colocações, entre outras, Adrià apresenta um mapa cronológico sobre a evolução do
El Bulli, apontando as primeiras inovações, as montagens novas, as espumas e esferificações.
Parte-se em seguida para a demonstração das técnicas – o uso do sifão, do alginato, cloreto e xantana. Prepara um pão de ló de gergelim e miso no sifão e microondas, mostrando
“que as receitas não são difíceis de executar”, e que os equipamentos estão lá para ajudar no processo. Adrià prossegue explicando o processo das esferificações, nas quais podemos obter uma espécie de caviar com qualquer produto – as esferas de interior líquido permanecem com o exterior gelatinoso, que se rompem quando colocadas na boca.
Adrià mostrou ainda um vídeo belíssimo com as criações doces de seu irmão Albert Adrià, para, logo em seguida, chamar todos os grandes Chefs ao palco, juntamente com a equipe técnica responsável pela realização do evento.
Em meio à flashes, câmeras e lágrimas, o público deixa o auditório com a cabeça cheia de idéias, novas crenças, menos ou mais preconceitos, talvez uma certa angústia, muitas dúvidas, mas certamente, quem saiu de lá, saiu com muito mais bagagem do que trouxe no primeiro dia do evento.
Como eu sempre digo...a gastronomia é dinâmica...
